|
Lembrei-me da primeira vez que visitei esta Sede Missionária, Dendotyo. Na época, estavam sendo desenvolvidas atividades visando os 20 anos de fundação do Dendotyo. Naquela oportunidade, participei da assembleia geral da Associação dos Moços. Os jovens dançaram os hinos do Serviço e tocaram os instrumentos. O “surigane” era feito com uma lata de goiabada adaptada. Pensei: “o pessoal do Brasil executa o Serviço mesmo diante dessas dificuldades...” Isso ficou profundamente gravado em minha memória. Creio que temos o aspecto atual porque houve a continuidade daquele espírito que verifiquei há 40 anos. O esforço e a dedicação dos senhores hoje também vai se ligar ao Caminho do Brasil daqui a 20 ou 30 anos. Peço aos senhores que trilhem este Caminho esforçadamente, com todo o empenho.
Hoje gostaria de pensar com os senhores a respeito de uma coisa chamada espírito. Mas antes, gostaria de falar um pouco sobre a situação atual do Japão. No Japão é dito que o século XXI será a era do espírito, será a época em que se deve cuidar do espírito. Em outras palavras, pode-se dizer que o número de pessoas que sofrem por problemas espirituais atualmente é muito grande. Nasci no ano de 1942. Nessa época, aquele pequeno país chamado Japão havia declarado guerra a um gigante chamado Estados Unidos. Independente do motivo da guerra, o Japão foi derrotado. Os 20 ou 30 anos depois da derrota na guerra foram de muita pobreza no Japão e eu fui criado em meio a isso. Na época do ensino médio, tive a oportunidade de estudar durante um ano nos Estados Unidos. Fiquei hospedado na casa de uma família da classe média americana. Os Estados Unidos eram prósperos e havia fartura em tudo. Havia tudo o que não tinha nas casas japonesas: máquinas de lavar, geladeiras, aspiradores de pó, máquinas lava-louças. Além disso, havia pelo menos dois veículos em cada família. Vivendo nesse ambiente, ficava pensando se algum dia teríamos todas essas facilidades também no Japão. Como o Japão era muito pobre, os japoneses trabalharam com toda a dedicação. Graças a esse esforço, hoje o Japão se transformou num país transbordante de dinheiro e bens materiais. Apesar disso, será que a felicidade foi alcançada? A resposta, infelizmente, é não. Apesar de toda a riqueza, o número de pessoas com problemas espirituais aumentou muito. Fenômenos sociais inexistentes até então foram ocorrendo aqui e ali, sucessivamente. Por exemplo, o número de suicídios entre os japoneses passa de 30 mil por ano, nos últimos dez anos. É um número enorme! Por que as pessoas cometem suicídio? Como devemos interpretar esses fatos? Somos forçados a pensar sobre a felicidade do ser humano. O problema está no espírito. Se não houver a satisfação espiritual, o ser humano não se sente feliz. Essa é a resposta a que chegamos vendo o aspecto atual do Japão. Por isso é que se diz que o século XXI é uma época em que devemos cuidar do espírito; é a era do espírito. Em 2005, no Japão, realizou-se a Exposição Internacional de Aichi. Havia muitas atrações nessa exposição, mas o que mais me impressionou foram os robôs. Havia diversos robôs sendo expostos e funcionando. Os robôs recebiam os visitantes, cumprimentavam e apresentavam as atrações. Fazer um robô andar sobre duas pernas é algo que exige muita tecnologia e isso tornou-se numa realidade nessa exposição. Num show combinado entre o robô e o homem, o apresentador era o robô, que chegou a dizer: “o ser humano, esforçando-se, pode fazer coisas incríveis, não?” Existem robôs bastante semelhantes ao ser humano. São os androides. À medida que a tecnologia for avançando, no futuro teremos robôs exatamente iguais aos seres humanos. Por outro lado, os seres humanos também estão se aproximando dos robôs. Tive a seguinte experiência no Japão: no aniversário de um de meus netos, fui a uma lanchonete e queria comprar hambúrgueres para todas as pessoas que estavam na minha casa. Entrei e pedi: “20 hambúrgueres e 10 porções de batatas fritas, por favor”. A atendente confirma o pedido: “São 20 hambúrgueres e 10 porções de batatas fritas, certo? É para viagem ou para comer aqui?” Entrei sozinho na lanchonete e pedi 20 hambúrgueres. Por mais guloso que eu seja, não conseguiria comer 20 hambúrgueres sozinho. Por que a atendente me pergunta se vou comer aqui? É porque está no manual de procedimentos da lanchonete. Não é exatamente como um robô, que fala exatamente conforme o manual, sem pensar na situação da outra parte? Se as pessoas não pensarem por si e agirem exatamente como está no manual, elas estarão se transformando em robôs. A diferença entre o robô e o ser humano está em possuir ou não o espírito. O que significa possuir espírito? Para nós, que seguimos o ensinamento de Oyassama, este é o ponto mais importante. Possuir espírito significa poder derramar lágrimas, significa poder expressar sua alegria em risos de felicidade. Mais ainda, significa tomar o sofrimento e a preocupação alheia como algo próprio e derramar lágrimas por isso, significa tomar a alegria alheia como a sua própria alegria e compartilhar esse sentimento com os outros. Nós, sozinhos, temos uma força limitada. Mesmo ouvindo sobre a infelicidade do próximo, não conseguimos fazer muita coisa. Nessas horas, será que conseguimos orar seriamente por essa pessoa? Penso que o espírito capaz de orar é a evidência maior da existência do espírito. Deus-Parens ensinou-nos: “Bem, falando de ser humano, o corpo é coisa emprestada por Deus ou tomada emprestada dele. Somente o espírito é teu bem.” No momento da criação dos seres humanos, Deus-Parens nos concedeu a liberdade do uso espiritual. Assim, o ser humano é um ser dotado da liberdade do uso espiritual. Recentemente, acompanhando o Shimbashira, participei do Encontro Inter-Religioso de Oração pela Paz Mundial, ocorrido na Cracóvia, Polônia. Além da oração, tivemos um debate em que cada religião apresentava o seu pensamento em relação a variados temas. O tema atribuído a mim era sobre “ciência e religião”. É um tema bastante difícil. Para os católicos, a religião é a Bíblia. O que está escrito na Bíblia é a verdade. Existe a figura de que a ciência desafia as verdades escritas na Bíblia. A ciência desafia a Bíblia. Por isso, existe a preocupação se as duas coisas podem coexistir, ou se a ciência irá asfixiar a religião, ou se a religião vai frear o progresso da ciência. No entanto, neste Caminho, tudo é providência de Deus. Por isso, o que enfatizei nessa oportunidade foi sobre a evolução espiritual. À medida que vamos evoluindo espiritualmente, vamos nos aproximando da intenção de Deus, e a inteligência e o conhecimento, que são a base da ciência, vão se desenvolvendo, fazendo com que a ciência seja aplicada em prol da vida plena de alegria. A evolução espiritual é o ponto enfatizado pela Tenrikyo e é um tema importante para nós. O espírito é algo que vai mudando. Para qual direção o espírito deve ir mudando? O espírito humano tem momentos em que avança para frente, mas também tem momentos em que retrocede. Dia a dia, o importante é caminhar em direção à intenção de Deus. Por isso, neste Caminho, mais do que o resultado, o processo é que é importante. Não se pode dizer: “vim caminhando até aqui e este é o meu ponto final”. Deve-se seguir caminhando e nessa caminhada, haverá momentos em que vamos sentir intimamente a presença de Deus, mas haverá momentos em que chegaremos a não acreditar na existência dele. Isso ocorre porque temos o espírito humano. Nessas oportunidades, receberemos os nós de Deus de modo que possamos voltar a trilhar o Caminho correto. Tendo essas coisas em mente, devemos pensar onde colocar o nosso foco, qual a disposição espiritual que devemos ter na caminhada como Yoboku. Em outras palavras, questionar o que devemos verificar para saber se estamos sendo salvos ou não. As pessoas que não estão sendo salvas são aquelas que não conseguem pensar em outra coisa senão em si mesmas. Por mais dinheiro que tenham, por melhor que seja a sua posição social, estão envoltas apenas em si mesmas, não conseguem pensar nos outros e dessa forma não estão sendo salvas. Ao contrário, mesmo doentes, mesmo sem dinheiro, mesmo ridicularizados pela sociedade, as pessoas que pensam nos outros, que desejam a salvação dos outros, são aquelas que estão sendo salvas. Isso porque elas estão mais próximas do pensamento de Deus. Os seres humanos pensam na sua felicidade pessoal, na felicidade de seus filhos e de sua família, na felicidade de seus amigos e de seu país. Isso tem como ponto central a sua felicidade momentânea. Normalmente se pensa na felicidade dos filhos, ou no máximo dos netos. O que Deus nos ensina é para pensarmos em todas as gerações futuras. Ensina que é por pensarmos apenas em uma geração que não compreendemos nada. Pensando em todas as gerações futuras, poderemos ter um novo ponto de vista. Nesses últimos meses, houve o retornamento de três ou quatro pessoas que, se permanecessem vivas, poderiam ainda servir excelentemente ao Caminho. Cheguei a pensar se Deus não havia cometido algum engano. Por que as levou? O Rev. Jiro Morishita, condutor de uma igreja nos Estados Unidos, é uma dessas pessoas que retornaram, antes mesmo dos 50 anos de idade. Era um líder entre os jovens americanos. Por que Deus teve que levar uma pessoa assim? O que pensar nessas horas? Por pensar em apenas uma geração é que não se compreende nada. A vida de um ser humano está registrada como dados no computador de Deus. Não só a vida atual, mas todas as vidas passadas. Todos os tipos de dados estão ali registrados e pode ser que o tempo de vida esteja definido com base nesses dados. Isso só Deus é que sabe. Por isso, quando uma pessoa retorna, o que importa é o quanto o pensamento dessa pessoa foi assimilado e está sendo colocado em prática pelos familiares e pelos companheiros de fé. Quando Oyassama ocultou seu corpo, as pessoas pensaram: “Se ela permanecesse viva pelo menos por mais 20 anos, ensinando-nos e guiando-nos, este Caminho poderia se expandir muito mais rapidamente”. No entanto, a realidade é que depois que Oyassama se ocultou, os mestres que assimilaram a sua intenção dedicaram-se com afinco na prática dos seus ensinamentos. Por isso, o ensinamento deste Caminho se expandiu rapidamente a todo o Japão e a vários países do mundo, inclusive ao Brasil. Falamos frequentemente em evolução espiritual. Qual o instrumento de medida dessa evolução espiritual? O mestre Miyotsugu Tooi perguntou numa palestra: “Os senhores estão felizes por crer nesta fé? A alegria dos senhores tem aumentado?” Será que os senhores aqui podem responder: “Sim, minha alegria tem aumentado.” Se puderem responder dessa forma, muito bem. Mas haverá aqueles que responderão: “Pensando bem, há dez anos estava muito mais animado...” “Na época em que me iniciei no Caminho estava muito alegre, mas hoje, vivo na igreja, mas estou cheio de espírito de insatisfação.” Será que não há ninguém que pense assim? Existem muitas pessoas que nasceram e cresceram na igreja, mas que estão apenas de corpo na igreja, cheios de insatisfação no espírito. Por que isso ocorre? Porque tem os ensinamentos de Oyassama apenas como conhecimento, não os colocando em prática. Sem perceber, acabam se tornando apenas comentaristas da fé dos outros: “Falta espírito de satisfação sincera àquela pessoa...”Aquela pessoa vem para o Hinokishin, mas lhe falta ânimo no espírito...” Passam a ver somente o defeito dos outros. Se o espírito de alegria aumentasse com isso, poderiam seguir assim, mas não aumenta. Para isso, devemos praticar o ensinamento dia a dia, com firmeza. Assim, para saber se estamos avançando na evolução espiritual, devemos verificar se o espírito de alegria tem aumentado dentro de nós. Mais um ponto importante: para que estamos nesta fé? Estamos nesta fé porque desejamos ser salvos. Isso é natural. Quando ficamos doentes, pedimos a salvação a Deus e somos salvos. Depois, nos esquecemos dele. Novamente ficamos doentes, pedimos a salvação e somos salvos. Repetindo esses fatos, não chegaremos a lugar algum. Chamamos isso de “fé pela graça”. A questão é se o espírito está mudando ou não. O que acontecerá se o espírito mudar? Quando Deus se revelou pela primeira vez a este mundo, ele disse: “Revelei-me neste mundo para salvar toda a humanidade”. Por isso, temos que ter a consciência de que existimos para salvar a humanidade. Para que existem as igrejas e o Dendotyo? Para que desenvolvemos as atividades das Associações Infanto-juvenis ou dos Moços? Tudo é para a salvação da humanidade. Devemos ter a convicção de que tudo o que se relaciona a este Caminho se liga à salvação da humanidade. Se não tivermos isso em mente, o aspecto da fé vai se desviando. O Brasil foi definido como sede das Olimpíadas em 2016 e da Copa do Mundo de futebol em 2014. Com certeza, o Brasil se tornará um país bastante vigoroso daqui para frente. Creio que haverá fartura de bens materiais e com isso, o espírito poderá ser deixado de lado. O importante é que os senhores, do Caminho do Brasil, recuperem o espírito dessas pessoas. Utilizando este Encontro de Incentivo como um trampolim, gostaria que se construíssem um Caminho ainda mais animado no Brasil. Gostaria de solicitar também que os senhores aqui do Brasil, sem cerimônia, liderassem o Caminho de todo o mundo, inclusive do Japão. Muito obrigado! *é Ministro e Diretor-Geral Administrativo da Sede da Igreja Palestra no Encontro de Incentivo aos Yoboku para os 60 Anos de Fundação do Dendotyo |