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Minha história - uma reflexão_março 2009 Imprimir E-mail
Escrito por Michi Okamura   
23-Mar-2009

No ano comemorativo do centenário da imigração japonesa no Brasil, completei 75 anos de vida em solo brasileiro.

Vou contar uma história ocorrida em 1953 ou 54.

"Okamura-san, vou receber mudas de sakura (flor de cerejeira) enviadas lá da minha terra natal. Como não conheço Santos, gostaria que fosse comigo, pois soube que o senhor tem ido lá de vez em quando" - perguntou o senhor Chujiro Otake, vindo de São Paulo.

 

Meu marido prontificou-se em acompanhá-lo e algum tempo depois foram a Santos, e, com a ajuda do proprietário do hotel Mikasaya, retiraram da alfândega 100 mudas de sakura.

Em agradecimento, meu marido recebeu duas mudas. Ao retornar, notificou a condutora Hatsue entregando-lhe as mudas. Ela as observou por um bom tempo e disse: "Niisan (irmão mais velho), infelizmente, uma delas deve secar".

"Por que a senhora diz isso?"- perguntou o meu marido espantado.

"Esta muda não tem nó. Sem nó, não cresce e secará. Mas, por via das dúvidas, plante-as".

Desse modo, meu marido plantou as mudas, dedicando-lhes os mesmos cuidados. Mas, realmente, uma delas não vingou, conforme palavras da condutora.

Muitas vezes, o nó da árvore é tão pequeno, que é difícil identificar. Entretanto, com o passar dos anos, e chegando a época oportuna, dele surgirá um pequeno broto que se transformará em pequenas folhas e ramos, daí surgirão novamente novos brotos e ramos que, gradualmente, formar-se-ão novos galhos e finalmente resultarão em flores e frutos.

Relembrando-me daquelas palavras, sinto que esse nó representa não só a vida da planta, mas também a nossa.

A nossa existência atual são as virtudes dos nossos pais avós, bisavós, e seus ancestrais que vieram renascendo através do tempo. Acredito que cada geração transmite uma herança de virtudes de nossos ancestrais. Assim, percebo que a virtude se compara ao nó das árvores.

Qual o significado da virtude?

É o dom de criar, educar com todo amor e carinho, ser misericordioso, ter compaixão; é ter espírito de dedicar-se, de iniciativa, de ajuda mútua, de praticar ação em função de outros; é ter o espírito capaz de encorajar, de incentivar as pessoas; e ainda ter o espírito de satisfação sincera, e de transformar tristezas, sacrifícios e sofrimentos num espírito de alegria e incentivo. É o estudo da vida, estudo do cotidiano tendo como adubo as virtudes recebidas para alcançar o amadurecimento social e espiritual.

Neste mundo vivem bilhões de pessoas. Todos são iguais como seres humanos, pois têm olhos, orelhas, boca, nariz, braços e pernas, órgão reprodutor e outros. Porém, a aparência, o caráter, a personalidade varia de pessoa a pessoa. Não há duas pessoas iguais neste mundo.

Assim que chego à igreja, a primeira coisa que avisto é a grande placa escrita "Igreja Tenrikyo de Três Barras". E, é com muita felicidade que mensalmente me encontro com os senhores fiéis, o que acredito que é pela vontade divina.

Quando penso com profundidade, percebo que fui doutrinada de que Tenri significa o universo a que pertencemos, inclusive o planeta terra em que vivemos. E, compreendo desta forma, o ensinamento de Oyassama diz que não existe outro Deus, a não ser o Fogo, a Água e o Vento. Fogo representa o sol, a luz, o calor do nosso corpo. Água representa a umidade do corpo, e que recebe a influência da lua. E o vento representa o ar que respiramos. Estas três forças dão vida a todos os seres deste mundo - este é o ensinamento da Tenrikyo. Tenri é a própria obra da natureza, é a graça da sobrevivência, isto é, a graça recebida de Deus.

Se neste mundo nascessem dez homens, teríamos dez cores diferentes; se nascessem cem, seriam cem cores diferentes. Essa diferença é a virtude que cada um recebe de seus ancestrais. Acredito que ninguém é de fato perfeito. Portanto, é natural que haja pessoas diferentes, com habilidades e preferências diferentes. Assim, devemos reconhecer e respeitar a individualidade de cada pessoa, confiar e complementar aquilo que falta através da compreensão, da cooperação e de ajuda mútua, daí surgirá um lar feliz, nascerá boas amizades entre vizinhanças e, consequentemente, haverá progresso nas vilas e nos povoados, que contribuirão na formação do indivíduo social e útil à comunidade.

Na convivência com os senhores que, animadamente, cumprem os afazeres da igreja, sinto ainda mais a presença e proteção de Deus-Parens. Tudo que vejo, ouço ou sinto, é algo milagroso. Neste mundo, onde a civilização progride cada vez mais e o homem é capaz de criar e idealizar tantas coisas, fico a imaginar o quanto ainda poderão evoluir.

Agradeço a Deus-Parens por ter me propiciado esta longevidade, permitindo acompanhar os senhores que animadamente participam das atividades da igreja, seguindo sempre as orientações divinas.

O Hino Sagrado, do Yorozuyo até o Hino XII, é cantado e acompanhado pelos movimentos das mãos e mostra em detalhes o desejo de Deus-Parens e o caminho que os homem devem seguir.

A realidade é que estamos vivos porque somos vivificados. A graça da natureza, a proteção de Deus-Parens é algo que não podemos mudar, pois é absoluto. Não devemos nos esquecer que somos nós que recebemos toda esta proteção, com tal exatidão, que sequer permite um mínimo de erro.

Amparados nesta fé e tendo em vista o amadurecimento espiritual, faço votos que, juntos, caminhemos o dia a dia com muita alegria e ânimo.

*Michi Okamura, esposa do 3º condutor da Igreja Três Barras, atualmente com 96 anos de idade.

 
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