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Nem sei há quanto tempo tenho guardado na bolsa junto aos meus documentos, um pequeno bilhete escrito às pressas pelo Reverendo T. Matsumoto. Nele, ele me dizia desejar que eu estivesse seguindo os ensinamentos da Oyassama e vivendo o Yokigurashi.neste longínquo Brasil.
No regresso a Jiba, quando voltava da região de Kyushu, eis que encontro o sr. Matsumoto. Cabelos branquinhos, o andar rápido e firme, apesar dos seus oitenta e tantos anos. Apresso o passo, para cumprimentá-lo e lhe mostrar o bilhete guardado por tantos anos. Esperava um certo reconhecimento, por ter guardado com carinho uma mensagem do antigo mestre. Mas ele apenas sorri, lê o bilhete e em seguida me pergunta: “E você, está vivendo o Yokigurashi?”
À pergunta não esperada, fiquei sem palavras. Talvez sabendo que eu não saberia responder, ele foi dizendo: “Pois eu sou muito feliz, pois vivo o Yokigurashi. Todos os dias faço o otsutome ao lado de minha mulher. Ela está com Alzheimer, mas me acompanha no Serviço Sagrado. Eu sou muito feliz.”
Devolveu-me o bilhete e tomou o seu assento, me deixando sem ação, nem reação. Guardei o bilhete e por toda a viagem fiquei pensando nas suas palavras. Na grande lição que mais uma vez ele estava dando.
Pois o nosso grande ideal de Vida Plena era para mim, algo para um futuro distante, um sonho para o qual devemos caminhar, mesmo que se nos pareça quase inatingível. Mas o que o mestre Matsumoto me perguntou, é sobre o nosso Yokigurashi de hoje. È sobre a felicidade do dia de hoje, qualquer que seja a nossa situação.
Relembro o mestre Matsumoto há alguns anos atrás, quando o vi com os olhos ainda marejados de lágrimas pela perda trágica do filho, a entregar a documentação para construir a sua igreja. Sem palavras para consolar, apenas abaixei a cabeça em admiração por este homem, que num momento de tanto sofrimento, colocava acima de tudo os seus deveres para com a igreja.
Relembro a visita que fizemos nessa ocasião à sua humilde casa. Ele, que sempre foi um dos pilares da Igreja-mor e que lutou para a construção do seu novo Recinto de Reverência, vivia numa casa pra lá de modesta.
Hoje, sei que ele construiu uma igreja bonita, que seu filho mais velho se casou e tem netos. Penso na pessoa que ele é, na sua vida que não foi nada fácil, e no seu rosto sempre radiante, a falar da Oyassama. Penso no que deve ser o nosso Yokigurashi do dia de hoje, apesar dos problemas, apesar das doenças...
O bilhete que ele me enviou e que ainda carrego comigo não é para ficar apenas guardado na carteira. É para ser lido muitas e muitas vezes.
*é yoboku da Igreja Campinas
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