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A construção de um lar feliz Imprimir E-mail
Escrito por Yuko Murata*   
26-Mar-2008

O tema deste curso que todos estão participando hoje é "a construção de um lar feliz" e, nesta ocasião, fui convidada a palestrar sobre a concepção de um casal dentro dos ensinamentos deste Caminho.

Estou casada há 33 anos e acredito que Deus me concedeu esta oportunidade para,  diante dos senhores, poder recordar e refletir sobre o meu casamento. Peço a atenção de todos.

Regressei a Jiba pela primeira vez com 22 anos de idade, recebi o Dom do Sazuke, estudei durante dois anos no Seminário Senshuka e voltei ao Brasil. Logo fui chamada pelo primaz Otake para me dedicar como uma jovem servidora (joshiseinen) aqui no Dendotyo e passei a servi-lo em sua residência. Naquela época, o meu marido havia sido enviado pela Sede da Igreja e se dedicava no escritório do Dendotyo como secretário. O primaz Otake considerava a razão da Sede com grande seriedade e meu marido era tratado com muito zelo. Quando ouviu de meu marido sobre a proposta de nosso casamento, ficou extremamente surpreso. Na época, meu avô também residia aqui e fui consultá-lo; ele considerou que como meu marido era o segundo filho, não haveria problema algum e a resposta foi, assim, tão simples que acabei me interessando.

Na Escritura Divina há o seguinte verso:

Protejo-os unindo as predestinações das vidas anteriores.

Isto se estabelecerá firme para todo o sempre. (I-74)

 Com o passar dos anos e convivendo juntos durante longo tempo, vim observando e pude convencer-me das semelhanças de predestinações das famílias Murata e Tanaka.

            Logo as crianças foram nascendo uma após outra, sendo agraciados com quatro filhos. A vida se tornou agitada e foi aí que certa vez, meu marido me despertou dizendo: "Quando éramos recém-casados, tudo o que eu pedia você fazia prontamente, mas após o nascimento de quatro filhos, se não lhe pedir a mesma coisa várias vezes, você não me atende..." Será que as mulheres, após o nascimento dos filhos, vão perdendo aos poucos a obediência? Pode ser que isso só tenha acontecido comigo...

Bem, é ensinado que Deus-Parens criou o ser humano com o desejo de desfrutar a vida plena de alegria juntamente com todos e primeiramente concebeu o modelo de casal. Ainda, nos Hinos Sagrados temos:

Modelando pela terra e céu do mundo,

Eu tenho criado marido e mulher.

Isto é o princípio deste mundo.

O casal foi concebido recebendo essa razão. Então, com que pensamento Deus-Parens criou o homem e a mulher? Estudando as Dez Providências Divinas, temos:

Kunitokotati-no-Mikoto: Representa a lua no céu. No corpo humano representa a razão da providência dos olhos e da umidade, e no mundo, a providência da água. No Serviço de Kagura, se posiciona ao norte e é representado pelo Shimbashira.

Omotari-no-Mikoto: Representa o sol no céu. No corpo humano representa a providência  do calor no corpo humano, e no mundo, a providência do fogo. No Serviço de Kagura, está posicionado ao sul e é representado pela esposa do Shimbashira.

O homem é o céu, a razão da água. Tem o papel de ser amplo e grandioso como o céu, de ponderar e agir com calma, e apesar de ser chamado como marido e respeitado, sua responsabilidade é grande e tem o papel de proteger a todos da família.

            A mulher é o sol, possui a razão da terra. Seu papel é dar sustentação a tudo e a todos como a terra, de receber todo o lixo e coisas desnecessárias transformando-as em adubo para criar e educar.

Naquela época, no Dendotyo viviam mestres de idade e senhoras que, apesar de serem mulheres, saíam para a divulgação a cavalo e fundaram igrejas. Morava também uma senhora que cuidava da cozinha desde antes da fundação do Dendotyo e uma esposa de marceneiro muito chata. Como naquela época não havia jovens, acredito que vivi bastante pressionada. Certo dia, após receber palavras muito severas dessa senhora, me senti tão mal que fui me queixar com meu marido,  dizendo que já não agüentava morar num lugar como aquele e ia embora para minha casa. Meu marido respondeu que aquele era o meu lar e nesse mesmo instante percebi o meu erro.

A mulher é o fogo e sempre acaba agindo movida pela emoção. Meu marido, que possui a razão da água, cobriu minha cabeça com sua água, acalmando o meu espírito.

Quando nossa segunda filha contraiu meningite proveniente de uma caxumba, fiquei bastante abalada, mas, após conversar com meu marido e refletirmos juntos, pedimos perdão a Deus e não houve maiores conseqüências.

A razão da providência de Kunitokotati-no-Mikoto é a Lua e representa o mundo noturno. A providência Omotari-no-Mikoto representada pelo sol rege o mundo durante o dia. Durante o dia, devido à claridade, podemos trabalhar e passear, mas à noite não conseguimos fazer nada devido à escuridão. A mulher sendo a terra possui a magnífica força de criar e educar. No entanto, não consegue brilhar sozinha. Para que a mulher possa brilhar é necessário que o homem, que tem a providência do céu, abra o seu próprio ponto de luz e ilumine a mulher. Ainda, é ensinado que o homem é a água e a mulher o fogo. A água cai de cima para baixo e a o fogo queima de baixo pra cima. Tanto para aquecer como para esfriar a água representada pelo homem, a mulher deve entrar debaixo do homem para realizar esse ajuste. Acredito que isso não seja um caso de superioridade ou inferioridade, mas para melhor entender e utilizar as funções há necessidade do reconhecimento da diferença entre ambos.

Podemos compreender que as dez providências estão em pares. Água e fogo. A lua e o sol. O pai e a mãe. A harmonia entre o fogo e a água é muito importante. Quando está quente, para que o calor não se torne algo insuportável, transpiramos e com a evaporação do suor, a temperatura corporal abaixa. Essa é a imagem da harmonia do trabalho do fogo e da água.

No Serviço de Kagura, Kunitokotati-no-Mikoto, a providência masculina, possui uma cauda de uma ponta que sai de sua cabeça e é ligada a Taishokuten-no-Mikoto. Omotari-no-Mikoto, a providência feminina, possui 12 cabeças e uma cauda de três pontas que está ligada a Kumoyomi-no-Mikoto, Kashikone-no-Mikoto e Otonobe-no-Mikoto. Acredita-se que essas caudas representam os papéis masculinos e femininos.

A cauda que liga de Kunitokotati-no-Mikoto a Taishokuten-no-Mikoto possui a providência do corte. Posicionar-se do lado certo, ou seja, ponderar todas as coisas com calma é o papel masculino. Em contraposição, Omotari-no-Mikoto, que nos concede a razão do fogo, tem 12 cabeças e uma cauda de três pontas. Uma dessas pontas é ligada a Kumoyomi-no-Mikoto, que possui a providência de entrada e saída de alimentos. Grande parte das mulheres de uma família harmoniosa tem gosto pela culinária. Creio que comer é um dos interesses mais comuns entre as pessoas.

            A segunda ponta é ligada a Kashikone-no-Mikoto, que representa a respiração, o trabalho das palavras. As palavras são muito importantes para uma mulher. Com palavras calorosas e amáveis une os corações da família. O primeiro passo para adquirir a serenidade no lar é pelas palavras, seja um cumprimento, uma palavra cheia de amor ou uma palavra que atinge a alma. Palavras que salvam, animam e contentam as pessoas têm uma energia extraordinária e se tornam um excelente adubo para as pessoas que ouvem.

            A terceira ponta se liga a Otonobe-no-Mikoto, que representa a extração e o trabalho de criar e educar. Gerar e educar são virtudes da mulher. A mãe deve dirigir palavras carinhosas ao filho para extrair as suas qualidades. Quem educa o coração do marido também é o carinho, a atenção e a preocupação da esposa.

Deus-Parens concedeu dessa forma os papéis masculinos e femininos. Para o homem, a natureza masculina, e para a mulher, a natureza feminina. Se perderem essas essências, nascerá uma desordem de valores. Cada qual aproveitando ao máximo as suas qualidades, respeitando e salvando um ao outro, é que poderemos ter a harmonia entre o casal e construir um lar feliz.

Na Indicação Divina temos:

"O casal deve conviver vendo a predestinação, deve ver e trilhar a predestinação. Escutem bem, escutem." Ossashizu de 22 de março de 1891

Há uma frase muito profunda ensinada por um mestre do passado que diz que "o casal é como um espelho em frente a outro". Ambos devem se imaginar vendo a si mesmo como refletido num espelho. A tendência é ver os pontos falhos do parceiro e culpá-lo por qualquer coisa, mas, se ambos tiverem assimilado no espírito a razão de dois em um do casal, os quais se complementam, será capaz de enxergar no outro os próprios vícios, maus costumes e más atitudes espirituais que são difíceis de serem reconhecidas por si mesmo. O ponto negativo do marido é o ponto negativo da vida passada da esposa que está sendo mostrado, portanto, é necessário o arrependimento por parte da esposa. O ponto negativo da esposa é o ponto negativo da vida passada do marido e este deve se arrepender. Acredita-se que a vida não é baseada somente no presente que vivemos. Existe a vida passada e a vida presente e somente quando pensarmos associando as duas é que o casal poderá viver em harmonia.

Eu não sei qual a visão que os senhores possuem de nós dois, mas vou contar um pouco a todos sobre a nossa personalidade. Tem um episódio que ocorreu em Jiba em abril de alguns anos atrás. Nesse dia, por incrível que pareça, não tínhamos nenhum compromisso e meu marido de repente me convidou para ver as flores desabrochadas que estavam na sua melhor época no templo de Hase. Fomos de bicicleta até a estação de Tenri e de lá pegamos um trem em direção ao local. Após chegar à estação, fui ao toalete e ao retornar, como meu marido estava observando a tabela de horários de volta e explicou que até tal hora teríamos que estar de volta... Aborreci-me e o passeio acabou em briga, porque mal acabamos de chegar ao local e ele já estava preocupado com a volta... 

O cotidiano do meu marido funciona com todas as obrigações do mês programadas e com horários estipulados. No meu caso, ao contrário, mesmo programando os afazeres do dia, nunca consigo fazer da maneira desejada. Meu marido é apressado e eu sou tranqüila. Assim, creio que o casal, apesar de possuírem personalidades contrárias, possui o papel de suprir as necessidades um do outro.

Em abril deste ano tive a grata satisfação de descer até o local sagrado participando como acompanhante (tsukebito) do Serviço de Kagura ao redor do Karodai. Os dez executantes do Serviço colocam suas máscaras e executam de pé, avançando dois ou três passos à frente e afastando dois ou três passos para trás, mas todos executam voltados em direção ao Kanrodai. No entanto, os que têm o papel de Izanagui-no-Mikoto e Izanami-no-Mikoto ficam de pé ao nordeste, exercendo a reverência um a frente do outro. Através dessa imagem, nos é ensinada claramente a razão do céu de que em qualquer lar, o marido deve viver reverenciando a esposa e a esposa deve viver reverenciando o marido.

A construção de um lar alegre se inicia pelo casal. Deus-Parens através das dez providências divinas explica o verdadeiro papel do casal além de instruir de maneira simples a tarefa de cada um. Um casal em harmonia é também agraciado com maravilhosas crianças. Durante a longa caminhada da vida, ocorrerão inúmeros acontecimentos, mas se o casal unir-se espiritualmente e buscar a intenção de Deus-Parens, com certeza receberá a graça. Gostaria que todos vivessem conforme a intenção do Parens que ensina que "a vida plena de alegria se inicia através do casal".

Muito obrigada pela atenção.

 
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